terça-feira, 9 de março de 2010
sábado, 2 de janeiro de 2010
A Ética da Compaixão
Na compreensão de Siddhartha Gautama, compaixão é o desejo, inerente em nossos corações, de que todos os seres estejam livres de sofrimento. Desse prisma traduzido pelos ensinamentos do Buddha, sempre que nosso olhar encontra outro ser humano, desejamos que encontre todas as causas e condições de felicidade e que esteja livres de todas as causas e condições de infelicidade.
Muitos, porém, se questionam como poderiam estabelecer compaixão na prática. Sob o ponto de vista teórico, diríamos, certamente, que nossa natureza humana já é compassiva, que espontaneamente desejamos que os outros sejam felizes.
No entanto, algumas vezes não conseguimos perceber isso com tanta clareza. Por exemplo, quando essa mesma natureza humana, por seus hábitos adquiridos ao longo da existência, é levada a agir de três modos. Ela tem:
* Apego às experiências que a ela são favoráveis e agradáveis;
* Aversão às experiências que a ela não é agradável nem favorável;
* Indiferença ao desconhecido.
Contudo, a partir de um enquadre na Ética da Compaixão, deveríamos ser capazes de ver a todas situações com equanimidade, aprendermos a olhar, observar, perceber, sentir e reagir a todo e qualquer fenômeno imbuídos verdadeiramente por esse conceito de compaixão, onde todos os seres, independentemente se são meus amigos, inimigos ou desconhecidos, são vistos equanimente como seres que buscam a felicidade e fogem do sofrimento. Uma vez que eu consiga me posicionar de forma equânime, conseguirei praticar essa ética de forma bem clara.
Todavia, na maior parte das vezes, de uma forma ou de outra, tendemos a valer nossos movimentos de palavras, pensamentos e ações com preferência ou parcialidade, que, muitas vezes, tornam a imparcialidade uma tarefa difícil. Nesse contexto, a prática da compaixão seria a ética da imparcialidade em todo e qualquer movimento que surja para nós. Quando tratamos de compaixão, que é o grande enfoque da Filosofia Buddhista, nós desenvolvemos um treinamento para observarmos as coisas, os outros seres, com equanimidade.
É importante observar que a essa natureza humana é inerente o estado de felicidade. Por outro lado, a busca dessa felicidade, muitas vezes, tem como resultado o sofrimento e a dor ou a infelicidade. Diante disso, precisamos compreender as motivações que nos conduzem em nossas buscas. Quando analisamos a motivação, encontramos uma ética. Mesmo assim, eu posso ter uma motivação verdadeira, mas não uma intenção muito verdadeira. Posso ter uma intenção verdadeira, mas uma motivação não tão verdadeira. Ou posso ter as duas não verdadeiras. Ou posso ter as duas verdadeiras.
Nesse campo é hora de observamos se, de fato, aquilo que busco tem uma motivação verdadeira, ou em uma linguagem mais sensível, uma motivação pura. A ética está relacionada diretamente a isso. Eu posso ser um supervisor numa fábrica e galgar o cargo de gerente, posso chegar nesse cargo de gerente demonstrando qualidades no meu trabalho ou posso chegar nesse cargo de gerente apontando as deficiências dos outros. Motivação e intenção caminham juntas. Mas, em qualquer dessas situações, se aprendermos que compaixão significa olhar o outro e desejar que esse outro tenha a mesma felicidade, alcance a mesma felicidade que você também está buscando, nesse momento desenvolvemos um sentido de equanimidade. Em outras palavras, todos nós somos absolutamente iguais, todos nós, dentro do contexto das nossas vidas, seja da vida profissional numa fábrica, da vida estudantil, da vida acadêmica, seja qual for, qualquer ação, qualquer situação, você sempre vai olhar os outros em estado de equanimidade. Todos nós vamos buscar condições melhores, que possam nos trazer uma sensação mais duradoura de felicidade e de bem-estar, porém, nunca permanente, porquanto nada na vida é permanente.
Ao desenvolvermos uma visão clara de equanimidade, teremos uma clareza ainda maior de nossas capacidades cognitivas e de realização, podendo, assim, alcançar o referido cargo de gerente sem que, no entanto, seja necessário desrespeitar a dignidade do outro. Talvez, na sociedade em que estamos inseridos, muitos são os exemplos daqueles que alcançam o sucesso desprovidos deste princípio de ética e de equanimidade.
Em resumo, a compaixão é a sua capacidade de visualizar o outro como você, de compreender o outro com os mesmos direitos de felicidade e de promoção, acima de tudo, da felicidade do outro. O grande filósofo indiano Shantideva é enfático ao dizer que a felicidade verdadeira que nós podemos experienciar e cultivar em nós reside na nossa capacidade de promover a felicidade ao outro e a verdadeira infelicidade que nós podemos experimentar é quando visamos somente a nossa própria felicidade. Então, compreendemos, nessas quatro linhas, o que é ética e o que é não ética. Ou seja, poderíamos dizer que ética é a expressão de nossas palavras, pensamentos e ações cujo resultado é a nossa felicidade como conseqüência da felicidade dos outros e a não-ética é quando a nossa felicidade resulta da infelicidade do outro ou da nossa própria e única felicidade.
Por fim, é importante lembrarmos que o ser humano é inerentemente compassivo, amoroso, paciente, tolerante, generoso e com uma grande capacidade de trabalho progressivo e criativo. Somos seres de criação e de realização. Essas seis qualidades fazem parte da nossa natureza e quando as nossas ações no dia-a-dia estiverem próximas dessas seis virtudes, dessas seis qualidades, estaremos praticando uma ética compassiva.
Quando Siddhartha Gautama observou o sofrimento humano, ele procurou compreender as causas da infelicidade, e essa causa reside nesse afastamento da nossa natureza, daquilo que nos é mais inerente, que é ser amor. Quanto mais próximos ficarmos da natureza humana, mais chances teremos de experienciarmos felicidade, regozijo e crescimento.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Os cinco venenos mentais e as cinco sabedorias
Venenos mentais | Sabedorias | |
Akshobhya | Raiva ou ódio | Sabedoria clara como espelho |
Ratnasambhava | Orgulho ou ego | Equanimidade |
Amitabha | Desejo ou luxúria | Sabedoria discriminativa |
Amogasiddhi | Inveja ou ciúmes | Sabedoria que tudo realiza |
Vairochana | Ignorância ou delusão | Natureza da mente (dharmadatu) |
O primeiro, que parece ser mais poderoso, é a raiva. A raiva é uma emoção que surge e se desenvolve contra alguém ou algo que não gostamos. Se analisado com cuidado, a raiva traz dor a curto prazo e graves prejuízos a longo prazo. A dor imediata e o dano futuro são para si mesmo e para os outros.
Quando a raiva é purificada passamos a desenvolver uma sabedoria clara como espelho. Assim, não há distinção entre o eu, o outro e os outros fenômenos. Tudo é vivido em união e harmonia. Ele é assim chamado porque os fenômenos aparecem à mente da mesma forma que as coisas aparecem em um espelho limpo: totalmente precisos e sem distorção. Compreender e realizar essa sabedoria aparece na ausência de emoções negativas como a raiva e o ódio e é simbolizada pelo Buda Akshobhya. Sua atividade é pacificar as emoções, em particular, o sofrimento, a doença, a frustração e a tristeza.
A segunda emoção negativa é o orgulho ou ego. O ego é a crença em um "eu" que desenvolvemos desde o nascimento logo que nossa mente pensa de si mesmo como separado dos outros. Os próximos três tipos de orgulho que evoluem nesse processo de egocentrismo são:
(1) Nós sentimos que somos melhores do que outros que estão em uma situação menos favorável,
(2) sentimos que somos superiores aos outros porque não conseguimos ver a igualdade de nós mesmos e outros e
(3) sentimos que estamos, ou espiritualmente ou materialmente, melhor do que outros.
O que nos levaria a embarcar na viagem do ego? Quando o eu acredita que é separado dos outros, a emoção negativa do orgulho surge na crença de sermos melhores do que os outros. Desde então, passamos a acreditar na existência de coisas "boas", que acreditamos e fazemos, e coisas "más", que os outros acreditam e fazem. Enquanto nós acreditarmos que somos superiores aos outros é impossível aprender com eles. Portanto, temos de abandonar o apego ao ego para desenvolver qualidades iluminadas. Uma mente purificada não faz distinção entre o puro e o impuro, bom e mau, eu e outros, mas sim experiencia todas as coisas em igualdade. Assim , quando somos livres do orgulho, realizamos a sabedoria da equanimidade que é simbolizada pelo Buda Ratnasambhava.
A terceira emoção perturbadora é relativa ao apego ou desejo. O desejo causa muito sofrimento por ser bastante perturbador e mantém a mente inquieta e ocupada. Por quê? Quando estamos ligados às coisas nunca estamos satisfeitos e sempre ansiamos por mais e melhores coisas. Estamos continuamente empenhados na realização e aquisição de desejos da mente e, com isso, experienciamos perdas e insatisfações em nossas vidas.
Quando eliminamos tal emoção negativa, a sabedoria discriminativa (Buda Amitabha) surge. É com esta sabedoria que desenvolvemos empatia com cada ser vivo e apreciamos as qualidades dos outros. Essa natureza se caracteriza pela falta de apego/desejo e sua atividade é magnetizante.
A quarta emoção negativa é a inveja, que inclui estar com inveja das riquezas, sucesso e boa sorte alheias. A inveja previne e impede um indivíduo de realizar o seu próprio bem-estar e, como resultado, ele experiencia mais sofrimento e continua a desenvolver ainda mais inveja para com aqueles que têm mais. Esta é a razão para que a sabedoria realizadora (Buda Amogasiddhi) é experienciada na ausência da inveja, isto é, quando a inveja é removida todos os desejos são naturalmente e sem esforços realizados.
A quinta emoção negativa é a ignorância. Ignorância é não reconhecer o que é salutar e a realidade última. A ignorância é a raiz das emoções negativas, de modo que, por exemplo, é somente por ignorância que estamos com raiva. Só agimos agressivamente em relação aos outros porque somos ignorantes em compreender que a raiva só traz dor e tristeza para si mesmo e aos outros. Da mesma forma, só é devido à ignorância que se tem orgulho, desejo e inveja.
A eliminação da escuridão da ignorância é a realização de Buda Vairocana. A sabedoria que brilha quando superamos a ignorância é a realização da natureza da mente que tudo abrange além dos extremos.
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